Parecer questiona a candidatura de Canella e aponta suspeitas sobre nomeações públicas e articulação política com organizações criminosas.
O Ministério Público Eleitoral (MPE) pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que impeça a candidatura de Márcio Canella (União Brasil), deputado estadual eleito no primeiro turno das eleições de 2026 no Rio de Janeiro.
Em parecer enviado à Corte nesta sexta-feira (23), o vice-procurador-geral eleitoral, Alexandre Espinosa, afirma haver elementos que indicariam a ligação do político com organizações criminosas. O documento pede que o TSE reverta a decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), que havia liberado o registro da candidatura.
Canella foi preso no último dia 15, durante a oitava fase da Operação Unha e Carne, investigação que apura um esquema de lavagem de dinheiro por meio de uma rede de postos de combustíveis no estado.
MP cita entendimento sobre candidaturas ligadas a milícias
No parecer, Espinosa afirma que o TSE admite o impedimento de candidaturas de políticos ligados a milícias e grupos semelhantes mesmo sem condenação definitiva, desde que existam elementos que comprovem essa relação.
O entendimento mencionado pelo vice-procurador-geral eleitoral tem como fundamento o artigo 17 da Constituição Federal, que proíbe partidos políticos de receberem recursos financeiros de entidades ou governos estrangeiros e de se subordinarem a eles, além de vedar a utilização de organizações paramilitares.
Segundo o parecer, o TRE-RJ liberou a candidatura de Canella sem ter acesso às provas do inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF). O processo deixou de tramitar sob sigilo neste mês, após a prisão do político.
O MPE defende que os elementos reunidos durante a investigação sejam considerados na análise do registro.
Investigação aponta atuação política em esquema de lavagem
De acordo com os investigadores, Canella teria atuado como articulador político do esquema envolvendo os postos de combustíveis. Há suspeitas de que ele tenha influenciado a indicação de integrantes para cargos de comando na segurança pública com o objetivo de beneficiar o grupo investigado.
O parecer também menciona suspeitas de recebimento de dinheiro em espécie proveniente do esquema.
Na sexta fase da Operação Unha e Carne, realizada em julho, a Polícia Federal apreendeu R$ 919 mil em espécie e dólares em endereços ligados ao candidato. Na ocasião, um fuzil de uso restrito foi encontrado no veículo dele, e Canella acabou preso em flagrante por porte ilegal de arma.
Se o TSE impedir a candidatura, o vereador Felipe Michel (PP), primeiro suplente pela federação União Brasil-PP, poderá assumir uma cadeira na Alerj em 2027.
Parecer cita nomeações na Alerj e em Belford Roxo
O Ministério Público Eleitoral também aponta outros indícios que, segundo o órgão, podem indicar relações entre Canella e grupos milicianos.
Quando era deputado estadual, ele manteve em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), até 2023, a mulher de um dos apontados como líderes do grupo conhecido como “Bonde do Jura”. Ela ocupava um cargo comissionado.
O parecer menciona ainda nomeações realizadas em 2025, quando Canella assumiu a Prefeitura de Belford Roxo. Segundo o documento, duas pessoas apontadas como lideranças de milícias da região foram nomeadas para secretarias municipais.
Uma delas já havia sido condenada por integrar um grupo paramilitar. A outra respondia a um processo por extorsão e porte ilegal de arma e, posteriormente, também foi condenada. De acordo com o parecer, ambos participaram da campanha de Canella nas eleições deste ano.
Operação Barricada Zero também é citada
Outro ponto do documento envolve a Operação Barricada Zero, realizada durante a gestão de Canella em Belford Roxo para retirar obstáculos instalados pelo tráfico de drogas nas vias públicas.
Segundo o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), teriam ocorrido acordos informais com o Comando Vermelho para permitir a liberação temporária de acessos a comunidades durante obras e gravações de vídeos. Depois dessas atividades, o controle territorial seria devolvido à facção.
Ao concluir o parecer, Espinosa afirma haver indícios de que Canella teria facilitado a entrada de lideranças milicianas na administração pública, recebido apoio eleitoral desses grupos e atuado como articulador de uma organização criminosa armada.
A reportagem informou ter procurado a assessoria de Canella pelo WhatsApp por volta das 14h30 desta sexta-feira (23). Segundo o texto original, o espaço permanece aberto para manifestação.
STF mantém prisão do deputado eleito
No dia 16, o Supremo Tribunal Federal decidiu manter a prisão de Canella. Ele foi levado para a Cadeia Pública Pedrolino Werling de Oliveira, conhecida como Bangu 8.
Na mesma unidade estão presos outros investigados no caso: Marcus Amim, delegado e ex-secretário de Polícia Civil; Pablo Jukiá Felix Ferreira; José Carlos Alves de Souza Júnior; Giovanni Gaspar Fernandes; e Christiano Gaspar Fernandes.
Segundo a Polícia Federal, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações superiores a R$ 7,6 bilhões pelo grupo ao longo de seis anos. As investigações também apontam a participação de agentes públicos e uma articulação política para viabilizar o esquema.
A PF atribui a Canella participação no núcleo político e institucional da organização. Conforme a investigação, ele seria responsável por conectar integrantes do núcleo econômico, agentes públicos e estruturas políticas, além de articular ações com integrantes de alto escalão.
Apreensões na oitava fase da operação
Durante a oitava fase da Operação Unha e Carne, os agentes apreenderam 20 veículos de luxo, 14 celulares, 49 joias e relógios de luxo, cerca de R$ 90 mil em espécie, 33 armas e munições.
Também foram recolhidos mídias, equipamentos eletrônicos e documentos que poderão integrar a investigação.
O pedido do Ministério Público Eleitoral ainda depende de análise do TSE. Até uma decisão da Corte, a possibilidade de impedimento da candidatura permanece em discussão.
